INTRÓITO

Subverter, Exorcizar, Viver, Beijar, Amar, Odiar, Saber, Piratear, Analisar, Mover, Parar, Rejuvenescer, Envelhecer... Tudo isso e nada. Petit Subversion é só um diário de alguém comum - de Anatólia... um fantasma.
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sábado, 3 de janeiro de 2009

SIAMÉSICO*


“E não se esqueçam que em vossos lares tudo é muito mais falso do que aqui.”
- Jean Genet –
*

Acredita em espíritos superiores? São como víboras que comem energias das pobres almas – sugando eu’s dos reflexos...
Sabe, durante a noite eu não durmo, fico fazendo listas, lembrando rostos, lendo Nietzsche e a lista telefônica. Uma vez arrisquei um nome, corri o dedo de olhos bem fechados até marcar stop crazy. Ela atendeu ao telefone após três chamadas, acho que esperava a minha indiscrição. Ela possui uma passividade bem humana – sobrevivente e artificial. Confessei desejos e misteriosamente presenças, que não quero revelar, materializaram-se, senti um perfume na pele e o coração pulsou mais forte. Fiz uma caçada silenciosa por longas semanas, meses... beber, lamber, saciar a sede atrevidamente. Os nossos olhos queimavam-se neles mesmos, nada mais além de tua íris castanha e tuas pupilas dilatadas... Milagres não acontecem todos os dias e juntar corpo com corpo é uma estupidez emocionante, coisas que o ser racional aprimora diariamente, distraidamente para fugir do cotidiano – não é uma epifania? Para aceitar o imprevisto, nós premeditamos. Tudo bem, eu confesso o meu crime, sou impessoal demais! E minha bondade de caráter é uma arte.
Todos os dias eu te segui e todos os dias até te morder, me abstive de outros corpos. Posso, nesse instante, desenhar as violetas de tua janela, lembro da cor, da dor e do sabor. Posso te conjugar no pretérito mais que perfeito, porque é uma mulher de imprevisível sabor... olhos de víbora, assim como os meus. Você me comeu e roubou o meu reflexo. E agora, quem sou?


* Vínculo Siamésico é o mais angustiante de todos os vínculos mãe-bebê, no sentido de que a criança pode experimentar a separação da mãe como se acarretasse a morte das duas, ou a impossibilidade de sobrevivência de uma delas, o que poderia acontecer, por exemplo, na situação parasitária ou na simbiótica, tal como observamos em determinadas esquizofrenias e em certos processos psicóticos. (Teoria do Vínculo – Pichon-Rivièe)

domingo, 7 de dezembro de 2008

sureél

Desejo by jon j. muth (sandaman)


É surreal?! (eu acho) Porém, para boa entendedora palavras loucas bastam. Não é um código, não é mensagem cifrada é, no mínimo, uma coisa louca, profunda e bem direta – na veia.


Murmuras hen? E é tudo tão simples, Ana, um azul seboso, um passar sobre, alguns tombos.
O que?
A vida, azul seboso. Tu crias um caminho de dores para ti, Ana, o coração e o UMM são ilusões, descansa.
Não posso, as coisas pulsam, tudo pulsa, há sons o tempo inteiro, tu não ouves?
Mas, são os sons da cor, teu som Ana.
Como é o meu som?
Quando caminhas pela casa me dizendo mentiras, te fazendo leve, é estridente, uniforme, o apito do homem do trem antes do trem sair, tu sabes... aos poucos te incorporas ao existir do trem e começas a ser o som nevoento das rodas, expulsas uns chiados
Senhora A, teu som do UMM, me assusta, sabes?
Depois quando te deitas e me tocas, uns graves curtos vão se fazendo, olhe, se os figos emitissem sons quando os abrimos seria esse teu som nessa hora quando me tocas
E depois?
Quando os cães raspam uma terra úmida
Sim, afundam o focinho também, aspiram
Expectativa, alguma coisa viva por ali
Alguns só raspam a terra para espojarem-se depois,
De costas
Não tu, Ana, é como se o vento, a terra, a dura cartilagem, em saliva e cheiro me tocassem, tubas, flautas
Deves ouvir... nem sonatas, nem trios, nem quartetos de cordas, só vida, palpitação. Se pudesses esquecer, Ana, teias, torções, sentir a minha mão sem o teu vivo-morte, te acaricio apenas, olha, é a mão de uma mulher, vê que simples, dedos, mornura, te acaricio apenas, e a tua pele teu corpo vai sentir a minha mão como se a água te circundasse, mas não sou eu experienciada em ti, me vês como nunca me pude ver, eu não sou essa que vivencias em ti, és Ana apenas, Ana que pode ser feliz só sendo assim tocada, não é bom? Fecha os olhos procura imaginar o vazio, o azul seboso, pequenos tombos, eu uma mulher te tocando porque te amo e porque o corpo foi feito para ser tocado, toca-me também sem essa crispação, é linda a carne, não mete o Outro nisso, não me olhes assim, o Outro ninguém sabe, Ana, Ele não te vê, nem te ouve, nunca sabe de ti, sou eu, sopro e ternura, sim claro que também avidez e sombra muitas vezes, mas é apenas uma mulher que te toca, e metemos vida, é isso Senhora A, merda, é apenas isso, agora vamos, maldita vem viver, vem ser feliz. Vamos, tira essa roupa poeirenta de passado, pega, beija, abre a boca e grita pro invisível, pra luz, pro nojo e fornicas o mundo e aspira as expectativas que nem um cão.


É meio Hilda Hilst é meio Anatólia Akkale – Misturei as coisas pra dá certo a loucura de te dizer o que sinto o que penso, o que desejo, então ficou assim...

sábado, 11 de outubro de 2008

A Minha Eleita: a moça do rádio portátil

Estou um pouco afastada do blog nos últimos meses, bem, muito trabalho, estudo e envolvimento com as eleições. Fiz um trabalho bem bacana de coordenação, onde pude aplicar alguns conceitos da psicologia da comunicação nestas eleições – juntamente com a nossa equipe – criatividade a milhão. Foi uma experiência maravilhosa, e, claro bem stressante, mas tudo compensou e estou inteira e pronta para outra batalha. Nossa, conheci muitas e... muitas pessoas – de todos os tipos e tamanhos.... interessantes e deslumbrantes... hummm... sujeitos com vontade – vontade de ver um mundo melhor. Conheci a Cláudia, nossa... que sujeita... Cláudia é publicitária e trabalhou com a gente na acessória de comunicação. O mais bacana dessa moça era o seu rádio portátil, onde ela acompanhava tudo o que acontecia na cidade. O rádio era algo assim... estilo neo contemporâneo com design anos 60, verdão com tira de braço. Era muito engraçado, acho que combinava com a Cláudia. Claro, claro, minha maior vontade não é descrever o objeto, mas a mulher, mas estou poupando minha sordidez e tentando ser, como diria, comportadinha. O melhor era ver a carinha da Cláudia ouvindo as maquiavélicas notícias sobre os candidatos. Ela se indignava de como falavam mal do nosso candidato e eu tentava dizer a ela que isso era natural e tal e usava termos amenos e intelectualóides... Até que ela se indignou comigo e disse (cabe ressaltar a sua linda expressão de rosto); virou-se para mim, franziu a testa e retrucou-me: “Olha só Ana, para de fingir comigo, tu sabe a verdade, então fala o que é verdade, ta muito nhe nhe nhem, manda eles tomarem no cú mesmo, tu sabe quem eles são, pra mim você pode falar claramente.” Nem preciso dizer que me apaixonei, né! Bem, a história que estou contando nem história propriamente é, mas precisava falar da moça do rádio portátil e de resto, quem sabe como a história será feita, sei lá, alguma coisa sempre se escreve e, principalmente, se inscreve em nós.... Ela é minha Eleita!

sábado, 5 de julho de 2008

Lei da Semeadura!

Deus disse à crente:
– Você não é digna de entrar no meu Reino!
Um nervosismo histérico tomou conta da irmã que se debulhava em lágrimas:
– Mas por que, senhor meu Deus, eu não sou digna de tua morada???
E Deus disse:
– Porque você dizima sobre teu salário líquido e deves dizimar do salário bruto!
– Mas... e o INSS senhor... mas...
– Calada! Deus não tem nada haver com o INSS...

*Esta história é baseada em fatos reais, qualquer semelhança não é mera realidade. Isso pode acontecer numa rua perto de você, cole seus ouvidos no mundo.

domingo, 22 de junho de 2008

Imagem dos olhos eu leio a tua Alma

teus olhos
entortam minha alma
verdes como as árvores,
floridos como as patas-de-vaca
e narcisistas como os eucaliptos

teus olhos grudaram nos meus
e vazaram minha alma
- vá com calma
e desgrude-os com os seios
- sei o quanto estão guardados

são teus olhos mal amados?

domingo, 6 de abril de 2008

Desejo

Um efêmero detalhe pode (e vai) trazer a mais viva lembrança da memória (para a memória). Com os desejos mais profundos também funciona assim, um signo – basta um signo para que voltemos ao tempo – um lugar, é bem verdade, atemporal.
Quando as Psykhes flutuavam, bastava que elas sugassem uma pequena gota de sangue para voltarem a relembrar. Nossos desejos são iguais, basta que bebam um pouco de sangue e revivem, renascem do escuro que tentamos deixa-los. Desejos não podem e nunca serão estancados, perpetuam até o último momento de nossas vidas.

domingo, 2 de março de 2008

Perdas e Ganhos:

Imagem: "As Máscaras do Medo" (bem sugestivo para o texto)

Falava a pouco com uma amiga sobre ser feliz. Bem, penso coisas a respeito da felicidade e da dor. Porque não sentir e aproveitar saborosamente nossas dores?! Quero sofrer bastante para dizer depois o quanto fui feliz. Coisa contraditória, aparentemente. Mas a felicidade me parece coisa tão fútil, não, na verdade, para mim, felicidade combina com alienação. Explicar as "coisas" que nos fazem sofrer nos faz sofrer mais, esta é a lógica. Então, concluo que a dor é mais saborosa, porque eu sei da dor, eu sei o porque – e saber o porque me deixa feliz, mesmo com dor. Eu pago para não me alienar, até me prostituiria para não me alienar, mas penso que prostituída seria submissa e conseqüentemente alienada. Bem, isso é mais uma ironia. Eu quero sofrer, eu quero rir, quero chorar, mas quero saber do mundo - saber que sofro, que o mundo sofre, que as pessoas sofrem, que as pessoas me fazem sofrer e que eu faço as pessoas sofrem. Parece cruel, mas é lógico que tudo isso existe e está mais na cara do que nariz. Ver tudo isso é sentir um calafrio angustiante e depois, quem sabe, ser um pouco feliz....

Para toda dor haverá um ganho, para toda felicidade haverá uma perda. Perdas e ganhos nos dão movimentos. Durante toda nossa constituição de sujeitos, de homens e mulheres vamos perdendo partes e ganhando partes, abandonando e aceitando e para o resto de nossas vidas vamos lidando assim, porém, sempre nos sentindo vazios. E é justamente a falta que produz esse dinamismo na vida – falta que nos leva a doer, enlutar, mas viver.

Enfim, nem sei mais, ao certo, o que falava, sim.... falava de saber, doer, feliz, alienada... que coisa... Perguntas, questionamentos são formas de ultrapassar certas barreiras. Mas, na vida (claro, da morte não sabemos), podemos nos deparar com certas respostas que são barreiras intransponíveis. Aceitar – a palavra é A C E I T A R. Eu quero perder e quero ganhar e aceito que o meu vazio é o vazio do outro e vice-versa. Eu amo essa coisa, essa teia – perfeita teia. O trágico é belo, acho que já falei isso e se não falei, com certeza, vou repetir isso muitas vezes.