INTRÓITO

Subverter, Exorcizar, Viver, Beijar, Amar, Odiar, Saber, Piratear, Analisar, Mover, Parar, Rejuvenescer, Envelhecer... Tudo isso e nada. Petit Subversion é só um diário de alguém comum - de Anatólia... um fantasma.
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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Você me come?


Um sabor me toma
Tomo do sabor alguma coisa desconhecida
Porque insisto em trazer-te para dentro como um alimento?
Como do teu sabor que não sei provar.

Comer as cores da vida
Rubra...
Meto-a para dentro
E sinto a vida correr em mim.

Engolir a angústia de ter teus beijos
Corpo sem espaço...
Onde é o lugar de te encontrar?
Como posso comer o que não vejo
Poderia me envenenar.

Não tem espaço, não tem corpo.
Ainda assim, ela me come todos os dias...
Entrego-me passiva, embora insista repetir minha atividade.
E mais ela me come.

Desejo ardente de apossar-se do desconhecido
Que sabor estranho deste estranho inominável.
Meto-a para dentro
Engolindo úmida o sabor do feminino.
Sim, é sabor feminino.

Mulher que come mulher se mortifica
E tem assento seguro ao lado dos que não tem corpo.
Tenho consciência de que como a própria carne divina.

A. A.
07.02.10

sábado, 16 de janeiro de 2010

BREVE ORAÇÃO DA VIRADA DE ANO


(Arthur de Faria, sobre poema de Daniel Galera)

"Dentes guardados. Não acabam nunca se guardados. Na boca apodrecem."
(Hilda Hilst, "Com os meus olhos de cão")

Deus, por favor não mais permita que os cachorros me dirijam olhares tristes por trás das grades do jardim das casas.
Deus, poupe-me também dos olhares tristonhos das empregadas que contemplam a cidade apoiadas nas sacadas dos prédios.
Tira, por favor, de todos os asilos, os adesivos do Ecco Salva afixados nas paredes.
Que as vastas platéias de cinema sejam ocupadas sempre por uma única pessoa, e que na saída do filme chova invariavelmente.
Bota fim, deus, a esse constrangimento injustificado que faz com que as pessoas desistam de trepar e dar abraços, mesmo quando elas sabem que isto seria necessário.
Convence a todos da impossibilidade do amor, e observa enquanto descobrem o amor como a única possibilidade.
Quanto aos pecados capitais, peço que tornes a Gula compatível com a Vaidade, a Preguiça compatível com a Avareza, a Ira compatível com a Inveja, e que a Luxúria soterre as anteriores.

Acabe com a Aids, deus.

Que todos tenham plena consciência de que vão morrer definitivamente, e que na hora da morte não possam evitar um breve sorriso de desobediência infantil. E conserva os dentes dentro de nossas bocas, para que apodreçam conosco.
Que persista no tempo apenas aquilo que fomos capazes de criar.
Peço que amanhã de manhã, deus, eu seja acordado com o peso familiar de certo corpo em cima do meu.
Que o sol invada minha barraca brando, resignado.
Então será o ano 2010, mas não fará diferença.

domingo, 8 de março de 2009

A uma dama que macheava outras mulheres


(...) De acordo com o Antropólogo Luiz Mott a mais antiga página literária escrita no Brasil, e certamente também a primeira em todas as Américas, a referir-se explicitamente aos amores lésbicos, é de autoria do baiano Gregório de Matos Guerra – popularmente conhecido como Boca do Inferno (1636-1695).

Boca do Inferno dedicou um poema a uma mulher chamada Nise que traz o título “A uma dama que macheava outras mulheres”. O verbo machear não consta nos dicionários antigos. No Aurélio consigna-se o verbo como “cópula do macho com a fêmea”. E foi, justamente, neste sentido que o poeta empregou o verbo, tanto que no mote introdutório completa:


“Nomorei-me sem saber, esse vício a que te vás, que a homem nenhum te dás, e tomas toda mulher”.


Eis o poema completo:



A uma dama que macheava outras mulheres

1
Fostes tão presta em matar-me, Nise, que não sei dizer-te,
Se em mim foi primeiro o ver-te, do que em ti o contentar-me
Sendo força o namorar-me, com tal pessoa hove de ser,
que importando-me aprender a querer, e namorar,
por mais me não dilatar namorei-me sem saber.

2
A saber como te amara, menos mal me acontecera,
pois se mais te comprendera, tanto menos te adorara:
a vista nunca repara, no que de dentro d’alma jaz,
e pois tão louca te traz que só por Damas suspiras,
não te amara, se tu viras, esse vício a que te vás.

3
Se por Damas me aborreces absorta em suas belezas,
a tua como a desprezas, se é maior que as que apeteces?
Se a ti mesma te quisesses, querendo, o que a mim ma praz,
seria eu contente assaz, mas como serei contente,
se por mulheres se sente, que a homem nenhum te dás?

4
Que rendidos homens queres, que por amores te domem?
Se és mulher não para homens, e és homem para mulheres?
Qual homem, ó Nise, inferes, que possa senão eu ter
valor para te querer? Se por amor nem por arte
de nenhum deixas tomar-te, e tomas toda mulher!

- Gregório de Matos Guerra -

sábado, 3 de janeiro de 2009

SIAMÉSICO*


“E não se esqueçam que em vossos lares tudo é muito mais falso do que aqui.”
- Jean Genet –
*

Acredita em espíritos superiores? São como víboras que comem energias das pobres almas – sugando eu’s dos reflexos...
Sabe, durante a noite eu não durmo, fico fazendo listas, lembrando rostos, lendo Nietzsche e a lista telefônica. Uma vez arrisquei um nome, corri o dedo de olhos bem fechados até marcar stop crazy. Ela atendeu ao telefone após três chamadas, acho que esperava a minha indiscrição. Ela possui uma passividade bem humana – sobrevivente e artificial. Confessei desejos e misteriosamente presenças, que não quero revelar, materializaram-se, senti um perfume na pele e o coração pulsou mais forte. Fiz uma caçada silenciosa por longas semanas, meses... beber, lamber, saciar a sede atrevidamente. Os nossos olhos queimavam-se neles mesmos, nada mais além de tua íris castanha e tuas pupilas dilatadas... Milagres não acontecem todos os dias e juntar corpo com corpo é uma estupidez emocionante, coisas que o ser racional aprimora diariamente, distraidamente para fugir do cotidiano – não é uma epifania? Para aceitar o imprevisto, nós premeditamos. Tudo bem, eu confesso o meu crime, sou impessoal demais! E minha bondade de caráter é uma arte.
Todos os dias eu te segui e todos os dias até te morder, me abstive de outros corpos. Posso, nesse instante, desenhar as violetas de tua janela, lembro da cor, da dor e do sabor. Posso te conjugar no pretérito mais que perfeito, porque é uma mulher de imprevisível sabor... olhos de víbora, assim como os meus. Você me comeu e roubou o meu reflexo. E agora, quem sou?


* Vínculo Siamésico é o mais angustiante de todos os vínculos mãe-bebê, no sentido de que a criança pode experimentar a separação da mãe como se acarretasse a morte das duas, ou a impossibilidade de sobrevivência de uma delas, o que poderia acontecer, por exemplo, na situação parasitária ou na simbiótica, tal como observamos em determinadas esquizofrenias e em certos processos psicóticos. (Teoria do Vínculo – Pichon-Rivièe)

domingo, 7 de dezembro de 2008

sureél

Desejo by jon j. muth (sandaman)


É surreal?! (eu acho) Porém, para boa entendedora palavras loucas bastam. Não é um código, não é mensagem cifrada é, no mínimo, uma coisa louca, profunda e bem direta – na veia.


Murmuras hen? E é tudo tão simples, Ana, um azul seboso, um passar sobre, alguns tombos.
O que?
A vida, azul seboso. Tu crias um caminho de dores para ti, Ana, o coração e o UMM são ilusões, descansa.
Não posso, as coisas pulsam, tudo pulsa, há sons o tempo inteiro, tu não ouves?
Mas, são os sons da cor, teu som Ana.
Como é o meu som?
Quando caminhas pela casa me dizendo mentiras, te fazendo leve, é estridente, uniforme, o apito do homem do trem antes do trem sair, tu sabes... aos poucos te incorporas ao existir do trem e começas a ser o som nevoento das rodas, expulsas uns chiados
Senhora A, teu som do UMM, me assusta, sabes?
Depois quando te deitas e me tocas, uns graves curtos vão se fazendo, olhe, se os figos emitissem sons quando os abrimos seria esse teu som nessa hora quando me tocas
E depois?
Quando os cães raspam uma terra úmida
Sim, afundam o focinho também, aspiram
Expectativa, alguma coisa viva por ali
Alguns só raspam a terra para espojarem-se depois,
De costas
Não tu, Ana, é como se o vento, a terra, a dura cartilagem, em saliva e cheiro me tocassem, tubas, flautas
Deves ouvir... nem sonatas, nem trios, nem quartetos de cordas, só vida, palpitação. Se pudesses esquecer, Ana, teias, torções, sentir a minha mão sem o teu vivo-morte, te acaricio apenas, olha, é a mão de uma mulher, vê que simples, dedos, mornura, te acaricio apenas, e a tua pele teu corpo vai sentir a minha mão como se a água te circundasse, mas não sou eu experienciada em ti, me vês como nunca me pude ver, eu não sou essa que vivencias em ti, és Ana apenas, Ana que pode ser feliz só sendo assim tocada, não é bom? Fecha os olhos procura imaginar o vazio, o azul seboso, pequenos tombos, eu uma mulher te tocando porque te amo e porque o corpo foi feito para ser tocado, toca-me também sem essa crispação, é linda a carne, não mete o Outro nisso, não me olhes assim, o Outro ninguém sabe, Ana, Ele não te vê, nem te ouve, nunca sabe de ti, sou eu, sopro e ternura, sim claro que também avidez e sombra muitas vezes, mas é apenas uma mulher que te toca, e metemos vida, é isso Senhora A, merda, é apenas isso, agora vamos, maldita vem viver, vem ser feliz. Vamos, tira essa roupa poeirenta de passado, pega, beija, abre a boca e grita pro invisível, pra luz, pro nojo e fornicas o mundo e aspira as expectativas que nem um cão.


É meio Hilda Hilst é meio Anatólia Akkale – Misturei as coisas pra dá certo a loucura de te dizer o que sinto o que penso, o que desejo, então ficou assim...

sábado, 12 de julho de 2008

Meu desejo ovelha negra repartido como os pães


“Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo”. -Clarice Lispector-

Quando Psiqué saía do corpo, ela voava até o Hades e dialogava com Odisseu. Psiqué era uma imagem. Para despertar Psiqué, bastava uma pequena gota de sangue, e até mesmo, o cheiro do sangue era suficiente. Psiqué era imortal – quando aparentava estar morta, algo sempre a despertava. Assim funciona o desejo – desejos são imortais; não há como fugir do desejo; e mesmo que adormecido, basta uma gota de perfume, uma imagem para que ressurja e nos faça navegar. Os desejos são, também, como cartas de navegação que nos levam a lugar nenhum, mas que nos dão um norte. São jarros vazios que permitem a forma. Quem não tem desejo deseja desejar – quem não deseja está morto. E se o desejo parar, também é uma morte – uma morte psíquica.
A REPARTIÇÃO DOS PÃES de Clarice Lispector é um pedido de satisfação de um desejo. Os convivas do almoço não tinham fome, mas ao verem a comida, ela apareceu. Parece que não queriam estar naquele local, estavam resignados a algo insosso, sem sabor de desejo. Era um momento amorfo, convencional. Talvez, o convívio entre aquelas pessoas mascarava o que realmente sentiam – desejavam. Juntos repartiam o pão, em silêncio. Talvez comungassem do mesmo desejo... Havia uma cumplicidade maior... O prazer de um era entendido pelo outro. Eles não queriam estar lá, mas estavam. Por contingência, comodismo, educação, por um desprazer velado, que também é desejo de satisfação. Fora dali, existia Deus nas acácias, mas em nenhum momento houve coragem de pegar o trem e partir em direção a elas. Ou seja, era um desejo proibido. Lembremos que desejos não podem nunca ser satisfeitos, no máximo, realizados. A plena satisfação seria insuportável, uma morte.
Falar do desejo é como cair num buraco. E o meu buraco é como um poço sem fundo. Eu queria falar de todos, abraçar cada cheiro que, em algum momento me despertou. Cada livro, cada música, cada poema... Amo e desprezo todos. Neste momento só posso eleger um...
Quero avisar logo que o meu desejo também é proibido.
Para permanecer próximo à Clarice, o eleito é Caio Fernando Abreu. Bem que eu quis me afastar-me da mulher e esquecê-la, mas tornou-se impossível. Pois quem me apresentou a ela foi justamente o Caio Fernando – ele é, sem dúvida, um discípulo, algo de muito íntimo une os dois, talvez uma devoção à dor, uma identificação de ser e de lugar no mundo.
Fará exatos dez anos que ganhei OVELHAS NEGRAS, no dia do meu aniversário. E assim se seguiu, a cada aniversário ganhei um livro – a safra rendeu-me quatro obras de Caio Fernando. Claro que os amigos se cansaram, me dei conta, hoje, que nunca retribuí... Sinto-me uma ingrata. Só espero receber e pouco me dôo.
Voltemos a falar do Caio Fernando, que está vinculado com a história de uma amiga muito próxima – a amiga Angelina. Foi ela que me apresentou a este autor. O pai de Angelina morreu num estranho e insolúvel assassinato na década de oitenta, quando ela tinha apenas sete anos – fato que me marcou muitíssimo. Nos idos da adolescência, uma tia dela comentou que encontrou nas tralhas do porão um velho livro, que pertencera a seu pai – O OVO APUNHALADO de Caio Fernando Abreu. Oh, puxa! Surpresa para Angelina. O pai lia um escritor “maluco”! E foi assim que, em nosso circulo de amigos, dividíamos os loucos e confissionais contos deste escritor. Nos emocionávamos com tamanha vivência e lirismo das histórias. Emociono-me ao lembrar destes fatos e momentos tão únicos – hoje, especialmente, nesta noite fria de neblina, reporto-me para o vinho que bebíamos, as gostosas gargalhadas nas madrugas geladas e nas projeções que fazíamos para o futuro. Um desejo de voltar no tempo e resgatar cada vivência. Não sou mais uma adolescente e queria voltar a ser... Mas, voltemos ao livro que ganhei, antes que meus olhos se encharquem... OVELHAS NEGRAS... O título já é uma luva – que me caiu tão bem... Eu era (e sou) uma ovelha negra! Escolhi um conto deste livro chamado “Anotações sobre um amor urbano”. Escolhi-o porquê foi escrito no ano em que nasci – 1977. Ele é como um diário íntimo, parece fragmentos de cartas, coisa assim, bem à moda do eu. Abre o conto uma citação da Hilda Hilst “Te amo como as begônias tarântulas amam seus congêneres...”.
A história-confissão é de um amor que foge ao alcance, de um amor que não se tem coragem de revelar e os amantes se enredam, num jogo... A história pode ser o amor de um só. O texto é de uma prosa poética fulminante, me fazendo pensar nos amores platônicos e inconfessáveis que, um dia partiram meu jovem coração. Ah, me sinto piegas falando disso, mas não posso fugir. O Caio Fernando expressa, sem dizer diretamente, como é amar do mesmo, ou seja, querer um igual. O difícil momento de revelar seu amor homoerótico de uma forma natural... assim como falar dos carros que rodam, buzinam e a cidade faz barulho e você lá... Do lado do seu enamorado, mas que a qualquer momento pode fugir, fazendo barulho, se ouvir a tua confissão... “Eu to a fim de ti”. É um naufrágio. O preconceito nos joga pra fora do barco, nos devasta, nos afasta. É sim! Quantos amores deixamos de provar, com medo da rejeição – não qualquer rejeição, mas aquela da cara de nojo, da “anormalidade”.
Bem, é esse Caio que me levantou. As escrituras desse autor permeiam minha vida. Um dia, quando pensava em ser escritora, quis ser como ele. Aliás, ele é meu guru de escrituras. Eu desisti do tolo sonho de ser escritora, (mais uma vez piegas!), porém os restos que me restam do desejo de escrever, são sem dúvida, inspirados em Caio Fernando Abreu.

Há uma impossibilidade de falar do desejo, sem prender-me a descrições de fatos. Eis minhas escrituras permeadas de desejo. Aquilo que a palavra não consegue dar conta, mas que em cada significante respira, respira, respira o inexpressável de minha vida primária – minhas demandas de amor, as quais só consigo reconhecer quando implico vivências do outro.

domingo, 1 de junho de 2008

PAPEL CARBONO

... Porque a lápis some antes!
Talvez seja, talvez queira ser de carvão
Carvão é leve!
Mas não me sinto leve
Me sinto pobre
E pobre parece pesado:
Não tem nada e carrega tudo!
Carrega mais! Sempre tem algo mais sobre os ombros!
As costas, o peito, a cabeça, os braços, as pernas, o coração...
Pobre cheira a carvão, a fumaça
Estou fedendo e desaprendi sentir bons aromas!
Coração de carbono, carvão...
Dor nas costas, na cabeça, pernas e braços...
E o golpe final: dor na alma!
Ébano: lata-de-coca-cola!

05/08/2003
K. Líope

domingo, 25 de maio de 2008

Cocacolismo

(Desenho em nanquim de Nêreo Ceratti)

“(...) O registro que em breve vai ter que começar é escrito sob o patrocínio do refrigerante mais popular do mundo e que nem por isso me paga nada, refrigerante esse espalhado por todos os países. Aliás foi ele quem patrocinou o último terremoto em Guatemala. Apesar de ter gosto do cheiro de esmalte de unhas, de sabão Aristolino e plástico mastigado. Tudo isso não impede que todos o amem com servilidade e subserviência. Também porque – e vou dizer agora uma coisa difícil que só eu entendo – porque essa bebida que tem coca é hoje. Ela é um meio da pessoa atualizar-se e pisar na hora presente”.
(Clarice Lispector – A Hora da Estrela)

“Como é mesmo o nome daquele refrigerante preto? Você pode esquecer tudo, o nome do seu amigo, o dia do aniversário de sua mãe, o dia em que você nasceu. Mas o nome daquele refrigerante preto você não esquece!”

sábado, 17 de maio de 2008

Entrevista Visceral de Clarice Lispector


É só pegar no Youtube (assistir) uma das raras entrevistas de Clarice Lispector. Clarice decidiu que deveria deixar um testemunho, foi até a Tv Cultura do RJ decidida a falar, porque encasquetou que iria morrer, o que realmente aconteceu um mês depois, em Dezembro de 1977. Clarice pegou de surpresa a equipe de tv, (Ela fez a equipe assinar um documento que só permitiria a exibição pública da entrevista após sua morte) tanto que podemos observar o modo “solto” ou mesmo a “saia justa” de como ocorreu a entrevista; o plano da câmera só focando em Clarice, em nenhum momento mostra o entrevistador. Penso que nem podemos chamar de entrevista é, sem dúvida, um depoimento de dentro da alma – é visceral. Nesta época, final de 1977, Clarice estava lutando contra um câncer de ovário que se espalhou pelo corpo – um câncer galopante, tomava constantes injeções de morfina para acalmar a dor – dor que não cessava. Não sabemos qual a maior dor – a da alma ou do corpo? Esse depoimento me assombrou... nos deixa em silêncio... Clarice parecia acomodada num divã fazendo o que melhor sabia – literatura com alma. Esse depoimento foi ao ar três dias depois da morte de Clarice lispector.
Vale a pena assistir, todas as partes, 1, 2, 3, 4 e os outros vídeos também.

domingo, 27 de abril de 2008

ASAS DO DESEJO À POESIA DE REINER MARIA RILKE

(Cena que abre o filme - Anjo Damiel)

Os anjos catalisadores do filme “Asas do Desejo” de Wim Wenders renunciam a imortalidade para provar uma xícara de café e um cigarro. Os anjos ouvem os pensamentos dos humanos, perpassam pelo cotidiano catalisando as dores e emoções que eles não são capazes de sentir; vêem o mundo com seus olhares sem cores, sentem as coisas e os objetos sem sentir; são capazes de roubar uma materialidade para tentar provocar alguma sensação. A dimensão de dois mundos (mundo angelical espectro e mundo humano paixões-desejos) é confrontada com a realidade da dor – a dor da 2º Guerra Mundial. A dimensão do real vem a tona com as imagens da Alemanha dividida pela guerra. O mundo espectral e onírico dos anjos é de um mundo sem angústias embora lamentem a eternidade e aparentemente invejem os humanos, mas não se angustiam como os humanos no seu cotidiano banal, em suas pobres vidas mortais. Asas do desejo nos oferece uma colagem de teorias filosóficas, uma espécie de síntese da humanidade – vai de Rilke (As Elegias de Duíno), Homero, Kierkegaard, Nietzsche, Sartre, Walter Benjamin... as pinturas de klimt ao roteirista do filme (Peter Handke) ...
Em Kierkegaar encontramos algo mais ou menos assim: A angústia é a diferença que nos faz humanos. A angústia é humana! É isso que nos diferencia dos anjos e dos animais.
Em Walter Benjamin: O que é o anjo do futuro? Ele está com a cara voltada para o passado e não consegue prever o futuro – a memória já é fragmentada, a história é fragmentada.

Asas do Desejo prevalece como uma grande obra prima do cinema; é sempre bom rever. É um filme carregado de poesia, encanto, dor e angústia. As musas de Homero são outras, a morte nos angustia, mas ainda assim podemos degustar um café e nos pulverizarmos interiormente com a fumaça de um cigarro que carrega nossas angustia em 5 minutos de fumaça. A Angústia nos faz humanos – humanos que não conseguem vislumbrar um futuro, tudo é incerto, nossa memória se fragmentou, apesar da oralidade fluir,porém só a partir de uma leitura singular... Só o sonho ainda pode nos transportar para a realização de nossos desejos – desejos de anjos, desejos de humanos, mas nunca esquecer que a angústia vem de nossos desejos mais profundos e desconhecidos.

O filme de Wim Wenders tem profunda reflexão sobre a subjetividade, sobre a humanidade, sobre a contemporaneidade, sobre o futuro e principalmente sobre as paixões humanas que por último constroem as primeiras. É muito para minha pobre associação livre do momento. Nada termina aqui. O filme ainda possui fantástica fotografia da dupla de velhinhos: Henri Alekan e Louis Cochet além de uma gótica e ótima trilha sonora composta por Jürgen Knieper, seguida por acordes de rock end roll com as bandas: Crime & The City Solution a tocar Six Bells Chime. E ainda Nick Cave ao lado dos Bad Seeds a tocarem a mítica From Her to Eternety. Uma das seqüências mais lembradas pelos admiradores do filme é aquela em que o Anjo Damiel, ao seguir a sua amada Marion pelas escurecidas ruas de Berlin, acaba entrando em um clube underground e presencia a sensacional performance de uma banda tocando uma melancólica canção de melodia sombriamente bela: "Six Bells Chime".

Um poema de Reiner Maria Rilke:

O Anjo
*
Com um mover da fronte ele descarta
tudo o que obriga, tudo o que coarta,
pois em seu coração, quando ela o adentra,
a eterna Vinda os círculos concentra.
O céu com muitas formas Ihe aparece
e cada qual demanda: vem, conhece -.
Não dês às suas mãos ligeiras nem
um só fardo; pois ele, à noite, vem
à tua casa conferir teu peso,
cheio de ira, e com a mão mais dura,
como se fosses sua criatura,
te arranca do teu molde com desprezo.

****************************************
Um Fragmento das Elegias de Duíno:

PRIMEIRA ELEGIA
*
Quem se eu gritasse, me ouviria pois entre as ordens
Dos anjos? E dado mesmo que me tomasse
Um deles de repente em seu coração, eu sucumbiria
Ante sua existência mais forte. Pois o belo não é
Senão o início do terrível, que já a custo suportamos,
E o admiramos tanto porque ele tranqüilamente desdenha
Destruir-nos. Cada anjo é terrível. E assim me contenho pois, e reprimo o apelo
*
De obscuro soluço. Ah! A quem podemos
Recorrer então? Nem aos anjos nem aos homens,
E os animais sagazes logo percebem
Que não estamos muito seguros
No mundo interpretado. Resta-nos talvez
Alguma árvore na encosta que diariamente
Possamos rever. Resta-nos a rua de ontem
E a mimada fidelidade de um hábito,
Que se compraz conosco e assim fica e não nos abandona.
Ó e a noite, a noite, quando o vento cheio dos espaços
Do mundo desgasta-nos o rosto -, para quem ela não é /sempre a desejada,
Levemente decepcionante, que para o solitário coração
Se impõe penosamente. Ela é mais leve para os amantes?
Ah! Eles escondem apenas um com o outro a própria sorte.
Não o sabes ainda? Atira dos braços o vazio
Para os espaços que respiramos; talvez que os pássaros
Sintam o ar mais vasto num vôo mais íntimo.
*
Sim, as primaveras precisavam de ti.Muitas estrelas
Esperavam que tu as percebesses. Do passado
Erguia-se uma vaga aproximando-se, ou
Ao passares sob uma janela aberta,
Um violino se entregava. Tudo isso era missão.
Mas a levaste ao fim? Não estavas sempre
Distraído pela espera, como se tudo te ansiasse
A bem amada? (onde queres abrigá-la
Então, se os grandes e estranhos pensamentos entram
E saem em ti e muitas vezes ficam pela noite.)
Se a nostalgia te dominar, porém, cantas as amantes; muito
Ainda falta para ser bastante imortal seu celebrado sentimento.
Aquelas que tu quase invejaste, as desprezadas, que tu
Achaste muito mais amorosas que as apaziguadas.
Começa Sempre de novo o louvor jamais acessível;
Pensa: o herói se conserva, mesmo a queda lhe foi
Apenas um pretexto para ser : o seu derradeiro nascimento.
As amantes, porém, a natureza exausta as toma
Novamente em si, como se não houvesse duas vezes forças para realizá-las. Já pensaste pois em Gaspara Stampa
O bastante para que alguma jovem,
A quem o amante abandonou, diante do elevado exemplo
Dessa apaixonada, sinta o desejo de tornar-se como ela?
Essas velhíssimas dores afinal não se devem tornar
Mais fecundas para nós? Não é tempo de nos libertarmos,
Amando, do objeto amado e a ele tremendo resistirmos
Como a flecha suporta à corda, para, concentrando-se no salto
Ser mais do que ela mesma? Pois parada não há em /parte alguma.
*
Vozes, vozes. Escuta, coração como outrora somente os santos escutavam: até que o gigantesco apelo levantava-os do chão;
mas eles continuavam ajoelhados,
inabaláveis, sem desviarem a atenção: eles assim escutavam.
Não que tu pudesses suportar a voz de Deus, de modo algum.
Mas escuta o sopro, a incessante mensagem que nasce do silêncio. Daqueles jovens mortos sobe agora um murmúrio em direção /a ti.
Onde quer que penetraste, nas igrejas
De Roma ou de Nápoles, seu destino não falou a ti, /tranqüilamente?
Ou uma augusta inscrição não se impôs a ti
Como recentemente a lousa em Santa Maria Formosa.
Que eles querem de mim? Lentamente devo dissipar
A aparência de injustiça que às vezes dificulta um pouco
O puro movimento de seus espíritos.
*
Certo, é estranho não habitar mais terra,
Não mais praticar hábitos ainda mal adquiridos,
Às rosas e outras coisas especialmente cheias de promessas
Não dar sentido do futuro humano;
O que se era, entre mãos infinitamente cheias de medo
Não ser mais, e até o próprio nome
Deixar de lado como um brinquedo quebrado.
Estranho, não desejar mais os desejos. Estranho,
Ver tudo o que se encadeava esvoaçar solto
No espaço. E estar morto é penoso
E cheio de recuperações, até que lentamente se divise
Um pouco da eternidade. - Mas os vivos
Cometem todos o erro de muito profundamente distinguir.
Os anjos (dizem) não saberiam muitas vezes
Se caminham entre vivos ou mortos. A correnteza eterna
Arrebata através de ambos os reinos todas as idades
Sempre consigo e seu rumor as sobrepuja em ambos.
*
Finalmente não precisam mais de nós os que partiram cedo,
Perde-se docemente o hábito do que é terrestre, como o /seio materno
suavemente se deixa, ao crescer.
Mas nós que de tão grandes mistérios precisamos, para quem do luto tantas vezes o abençoado progresso se origina - : poderíamos passar /sem eles?
É vã a lenda de que outrora, lamentando Linos,
A primeira música ousando atravessou o árido letargo,
Que então no sobressaltado espaço, do qual um quase /divino adolescente escapou de súbito e para sempre, o vazio entrou naquela vibração que agora nos arrebata e consola e ajuda?
*
- Reiner Maria Rilke -

Traduções do poeta paraense Paulo Plínio Abreu

domingo, 20 de abril de 2008

O que é ser artista? O que é escrever? (De Violet Trefusis para Vita Sackville-West)

(Escrivaninha de Vita)

25 de janeiro de 1918

Era uma vez, uma artista e uma mulher, e a artista e a mulher eram uma só pessoa. No decorrer do tempo, a mulher se casou; ela se casou com o príncipe de seus sonhos, e uma alegria irreversível e imutável desceu sobre ela. A artista foi temporariamente esquecida: envolvida em um confortável torpor, a artista dormiu, e a mulher exultou em sua condição de mulher e na felicidade que podia proporcionar...
Certo dia a artista despertou para encontrar a câmara de seu sono encolhida e distorcida, as janelas se tornaram muito pequenas, ela mal podia enxergar fora delas, os brocados estavam esmaecidos; os adamascados e cetins pendiam como fantasmas... Debilitada pelo pânico ela correu para sua janela; viu uma mulher brincando em um gramado macio com uma criança sorridente. Naquele momento, elas se encontraram; confrontaram-se uma com a outra, a mulher serena, amorosa, imperturbável, e a artista desafiadora, ciumenta, irritada diante da resistência. E a artista manteve-se firme e escarneceu da mulher. Pobre artista: Cigana desgrenhada e irresponsável, era mais do que ela podia suportar – Agora a mulher pertencia de coração e alma a seu marido e a seus filhos, mas a artista não pertencia a ninguém, ou antes à humanidade. Imaginária, ela divaga pela terra, hoje aqui, amanhã ali – o mundo é apunhalado pelas flores inúteis de sua proteção...
A combinação da mulher e da artista produziu uma espécie de mentalidade tão rara quanto sublime; um artista, seja na pintura, na música ou na literatura, deve necessariamente pertencer a ambos os sexos, seu julgamento é bissexual, deve ser completamente impessoal, e ele deve ser capaz de se colocar com impunidade no lugar de cada sexo.
O resultado deste equilíbrio intelectual foi tornar você de repente consciente da sabedoria de séculos nos olhos desta mulher; uma mulher de perfeita verdade, límpida, clara, intocada pela instabilidade do homem – você compreendeu que ela tinha em si algo de uma verdade eterna, de uma beleza eterna, adiante, muito adiante do alcance de nossa débil compreensão... Algo tão velho quanto as montanhas, tão velho quanto o mundo, porém eternamente jovem, eternamente inatingível... Algo divino, olímpico, vertiginoso, que vê até mesmo aquilo que é menos conhecido para si do plano da compreensão e da comiseração superlativas. A lira sonora que é concebida a um dentre mil silenciosos – o artista, sim! O artista que deve ser nutrido diariamente com novas intuições, novas condições, novos amores e novos ódios para se manter cantando para a humanidade! O artista – o supremo luxo que os deuses lançam ao mundo quando se percebe que ele deve se expressar ou morrer!
E a mulher talvez sorria quando ler isso, e seus amigos lhe dirão que esposa e mãe ideal ela é, o que é verdade, mas a artista se retrai horrorizada com a imputação de presunção que essas palavras não conseguem ocultar –
Deus sabe que é esteticamente incorreto o artista ser contido pela domesticidade. Pégaso é arriado a uma charrete, Marisa toca harmônio. Fecho meus olhos, e pareço ver, apesar dos atributos semelhantes aos de Demétrio com os quais a mulher é sem dúvida dotada, não a mulher, mas a artista galgando os cumes das montanhas, silenciosa, inspirada e só.

(Esta carta não foi assinada por Violet)

- As Cartas de Amor de Violet Trefusis para Vita Sackville-West-
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Para fazer uma análise deste conteúdo é preciso entender alguns fatos, fazer uma reconstituição dos passos cotidianos da vida de Violet e Vita, ao menos, neste período, nesta data, específica, da carta. Os ocorridos deste meio tempo é que ditam o conteúdo manifesto desta carta tão deslumbrante, genial. O que Violet fez foi uma análise ímpar... Para este mero trabalho sem propósito algum (nem por isso irresponsável), também usaremos de nossas possíveis associações – associações livre. Como não temos nenhuma pretensão, o que vai ditar o rumo desta analise são meras associações de coisas apaixonantes que podem se ligar, assim como podem se separar sem nunca terem combinado, como uma tórrida paixão.
Violet tinha 22 anos quando escreveu esta carta, estava, nesta época, fazendo aulas de arte, o que sem dúvida influenciou neste discorrido, além de ter trabalhado numa cantina de soltados em 1917(vendo os horrores da guerra) e sentindo-se muito solitária. Durante os anos de 1914 e 1918 pouco se encontraram. Neste período transcorria a 1º Guerra Mundial. Época contrariamente de felicidade familiar para Vita. Em 1914 nascia seu primeiro filho com Harold Nicolson. E em 1917 nasceu o segundo filho, Nigel (que aparece dando depoimento na biografia de Virginia Woolf no filme “As Horas”). Neste tempo, Vita parecia se dedicar ao lar feliz, o que provavelmente fazia Violet corroer-se de ciúme, de dor e distanciamento. A paixão queimava em fogo lente, esperando o momento oportuno para entrar em erupção. Isso ocorreu em 13 de abril de 1918, quando Violet foi visitar Vita sozinha, no seu novo endereço em Long Barn (mas isso é outra história).
Voltemos à análise do conteúdo textual. O que Violet quer dizer com a frase “era uma vez uma artista e uma mulher, e a artista e a mulher eram uma só pessoa.?” E ela continua dizendo que a mulher se casou e a artista foi temporariamente esquecida.... Dá muito na cara, não tem mistério o que Violet manda como mensagem para Vita. Ora, Vita queria ser uma artista, estava escrevendo um romance. Mas como ser artista e dona de casa, ou no melhor dos termos um mulher submissa aos filhos e marido, quando desejava ser a toda poderosa Vita Sackville-West – uma mulherzinha, para ser chula. Era isso que Vita desejava para si mesma? Violet conhecia muito bem os temperamentos de seu “Julian”, e queria abrir os olhos da outra, ou melhor, estava chamando Vita para pensar, para refletir sobre sua posição e antes de tudo, chamando Vita, novamente, para a tórrida paixão. Tem um fundo provocativo, com certeza.
Faremos uma referência a vida de Sylvia Plath, que não tem relação nenhuma com o romance nem vida social de Violet e Vita, mas responde a questão de ser uma artista e ser uma mãe de família, diria assim. O que nos interessa é somente a produção literária. A obra de Sylvia Plath não faz o menor sentido sem a vida dela. É preciso casar vida e obra. Sylvia só escrevia quando tomada de grande sofrimento e enquanto feliz e casada não produziu nada. Quando lemos uma poesia desta autora sem saber da autoria, logo, pensamos, quem escreveu só pode ser um amador, ou alguém desequilibrada, quase um psicótico, pelas palavras desconexas (mas não quero entrar no mérito agora, deixemos a posteriori). Mas pensando neste ponto, nos dirigimos a questão do que é escrever? Parece mesmo ser preciso uma boa dose de sofrimento psíquico para fazer uma grande produção. “O artista deve ser nutrido diariamente com novas intuições, novas condições, novos amores e novos ódios para se manter cantando para a humanidade” – escreveu Violet.
Vita estava sendo contida pela domesticidade do lar, da família, e enquanto fosse levada pela vida feliz nada que preste artisticamente seria produzido. Ao que tudo indica Violet lhe chama a atenção, “vá viver outras coisas mulher, entregue-se à bissexualidade, à paixão e venha para os meus braços, pois só assim poderá encontrar o veio artístico dentro de você”. Violet não disse isso com estas palavras; fez melhor, produziu uma pequena tese sobre o assunto. Fico conjecturando, que a grande inspiração e o veio artístico de Vita é o resultado de sua convivência e romance com Violet – o grande alimento, o maná da vida “desregrada”, “imoral”, “irracional”, ao contrário da vida de luxo, tédio, requinte e nobreza da herdeira do nome Sackville-West – Violet é o veneno e o remédio que os deuses mandaram. Pensemos qual o artista que não se entrega de corpo e alma na letra, na tinta, ou em qualquer outra produção? É preciso entrega e se há entrega também há grande dose de dor, de paixão, de amor – passio, phatos. A arte é uma catarse – sublimar é elevar o sofrimento ao lugar de tópos, de transformação – superação. É preciso que Vita se entregue a Violet – acordar Mytia e Julian do sono profundo da futilidade para que ele, vestido de fantasias tome Alushka, e se lancem, ambos, no paraíso do prazer e da arte. Um lugar distante de toda a pomposa e esnobe sociedade inglesa – herdeira da moral vitoriana. O tópos de Violet é a paixão incomensurável onde mora a intelectualidade e lubricidade – a beleza. E a melhor parte disso é que em abril de 1918 Vita se entrega, mesmo que temporariamente, ao mundo de Violet.
Anatólia A.

sábado, 12 de abril de 2008

Carta de Violet Trefusis para Vita Sacckville-West

30 de junho de 1918

Men tilich, foi um inferno me separar de você hoje. Deus, como adoro e desejo você. Não imagina quanto... A noite passada foi perfeita... Estou orgulhosa de você, minha doçura, delicio-me em sua beleza, sua beleza de forma e de traços. Exulto com minha rendição, hoje, embora nem sempre isso tenha ocorrido. Querida, se seu romence tivesse sido escrito em francês, inevitavelmente teria sido batizado de “Domptée” (Dominado, isto é, subjugado).
Mitya, sinto tanto a sua falta – não me importo com o que eu digo – Adoro pertencer a você – regozijo-me de que apenas você ... tenha feito com que eu me submetesse às suas vontades, destroçasse minha autopossessão, me espoliasse de meu mistério, me tornasse sua, sua, de tal forma que longe de você nada sou senão uma boneca inútil! Uma casca vazia. Alushka precisa não se envergonhar de ser a amante de Dmitri... pelo contrário!...
Por que eu me preocupo com o que lhe digo? Se fiz algo, foi acrescentar algumas “cortinas” às minhas maneiras em benefício das outras pessoas, mas para você não há cortinas, nem mesmo as mais leves! Exulto ao saber como temos pouco em comum com o mundo...

Sua Lushka

QUEIME ESTA! Prometa.