
“O próprio escrever perdeu a doçura para mim. Banalizou-se tanto, não só o acto de dar expressão a emoções como o de requintar frases, que escrevo como quem come ou bebe, com mais ou menos atenção, mas meio alheado e desinteressado, meio atento, e sem entusiasmo nem fulgor”.
(Fernando Pessoa – Livro do Desassossego)
(Fernando Pessoa – Livro do Desassossego)
Poderia fingir sono e sonho e, então, viver na fantasia do eterno dormir. Poderia se não fosse à insônia e os monstros do dia a me perseguir. De lá para cá não sei mais ao certo quem sou. E onde é este lá e este cá? É dentro de mim. Vivo, faz quase um ano, uma espécie de in solidum. Toda minha alma está tomada pelo mal. Por conta disso dei, ultimamente, de ler o mal do século. Ler Rimbaud com dezoito anos é uma coisa e ler Rimbaud aos trinta e poucos é bem outra. O mesmo vale para Baudelaire, meu grande mestre, meu Satã da literatura.
Tenho pronunciado a célebre estrofe das litanias: “Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria”. Quando estou andando solitária, na rua povoada de civilização, me ouço em ladainha pedindo misericórdia para Satã. Sinto-me louca, miserável e em decomposição com a vida, diria melhor, em descompasso com a vida. Desculpo-me por tudo e por todos os sofrimentos do mundo, como se eu fosse a única causa dos males que afligem os humanos. Nas noites silenciosas sento-me na varanda e fumo pensando que quero ser deus – um deus cruel que mata a todos e depois chora. Aliás, como tenho chorado... Será que lágrimas curam? Momentaneamente sim. O desejo maior é voltar ao calor uterino, pois vivo um espedaçamento narcísico, diria Freud – ferida que jamais cicatriza.
Minha melancolia é fruto... fruto. E basta dizer isso. Fruto de uma missa fúnebre. Como me apraz à alma escutar cantos fúnebres... Estou num contínuo e interminável ritual de morte. Onde o morto, quase em decomposição, anseia ser enterrado e ninguém lhe acode, pois todos permanecem fixos. Fumam, silenciam, bebem e se encaram vez que outra para ter a certeza de que permanecem todos na sala. Uns vigiam os outros e ninguém pode sair. Lá fora aves de asas oblongas circundam a casa, cães magricelas disputam o território. Pediriam um osso de braço do defunto? Dizem que cães não comem homens. Sinceramente, não sei. Só sei que homens são capazes de comer homens – a velha história da antropofagia.
Lamentemos, de mãos suadas e dadas, para eu-infeliz e para outros infelizes:
“Vita detestabilis, nunc obdurat, et tunc curat... sors immanis et inanis, rota tu volubilis, status malus, vana salus semper dissolubilis, obumbrata et velata michi quoque niteris; nunc per ludum dorsum nudum fero tui sceleris. Sors salutis et virtutis michi nunc contraria, est affectus et defectus semper in angaria”.
“Vita detestabilis, nunc obdurat, et tunc curat... sors immanis et inanis, rota tu volubilis, status malus, vana salus semper dissolubilis, obumbrata et velata michi quoque niteris; nunc per ludum dorsum nudum fero tui sceleris. Sors salutis et virtutis michi nunc contraria, est affectus et defectus semper in angaria”.
Incomoda-me toda esta inteligência do mundo sobre o mundo, querem curar a tudo e nos deixam mais loucos, mais sofridos. Quanto mais curam, mais doenças causam. Não quero fazer parte do mundo, quero estar alheia, se coragem não me faltasse – pois bem, eis uma fraqueza que escondo – a covardia – faria como Rimbaud, escolheria uma terra vulcânica para me esconder e sofrer, suar e sufocar... Pobre Rimbaud morreu amputado e solitário. Que roda da fortuna reserva-me o ocasio? Qual o trem que hei de pegar para encontrar deus – “Deus est anima brutorum?”
Vou agora fingir que durmo para dissipar as luzes que me ofuscam, pois já é dia e os passarinhos cantam para minha angústia. Detestáveis eles cantam... Insipientes eles cantam... Por favor, digam-me, onde está o botão para desligar tudo isso?